Desfolha-me…

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Descobre-me,
Folheia-me
Traduz
Palavra a palavra
A sintaxe
Do meu corpo
Conjuga-me
Em todos os sentidos
Contorna
A minha forma
Cor e textura
Quero ser complemento
Singular
Da tua leitura.
Enfim,
Advérbio de tempo
Presente
Nos gestos
Entre os versos
Escritos em liberdade
Lê-me,
Sem princípio nem fim
Desfolha-me,
Como se entrasses dentro de mim.

Entre o rio e o mar

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“Sou rio que só conhece o teu mar”

Sou rio
Para no teu mar desaguar
Nos teus braços ondear
Provar o sabor do teu sal
Entre o vento e tempestades
Ir mais longe e mais além
Entregar-me às marés
Onde vais e vens
Banhar-me na tua espuma
Deixar-me ir
Na água que resfria
Sob o manto da tua bruma
Cair na tua profundidade
No abismo do desejo
Naufragar no teu oceano.

Porquê?

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A dor que me veste o peito
E o desgosto tatuado no rosto
São retrato de um coração desfeito
Cravado de agonia
Transbordando de angústia
Tanto de noite como de dia.

Ausentaram-se as palavras
Para costurar a ferida
Que sangra pela partida
De uma vida interrompida
Onde o manto de tristeza
Cobre e sufoca a leveza.

Os gestos perdem o sentido
O corpo vagueia mudo e perdido
A saudade rasga-me a pele
Enquanto o olhar repousa
No silêncio da solidão
E pergunta, porquê?

Entrelaçados

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Quero que habites
Todos os pontos onde moro
Quero ser a pele
Do teu caminho
O pouso entre os teus voos
Cobrir as nuvens
Enquanto o céu se abre
Voar entrelaçada nas tuas asas
Tecer a liberdade
E voltar ao ninho
Para alimentar a vontade
De viver o amor
Vesti-lo com a idade
Aprender a envelhecer
Lado a lado
Sentir o teu olhar
Na minha pele enrugada
Feliz de tanto ser amada.

Bom dia!

 

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“Cada dia é uma fragrância
O meu coração um frasco de perfume
Alberga a doçura de saber amar
Liberta frescura ao acordar”

O dia acorda silencioso
Um pouco preguiçoso
Tal como o meu corpo
Ainda alimenta a madrugada
Avesso à alvorada
Entre gestos desajeitados
Tombados,
Sob a inércia do aconchego.
Enquanto o tempo
Aparece meio ensonado
Até um pouco camuflado
Mas não para de dar corda às horas
Flecha que me crava o pensamento
Não me deixa saborear o momento
Quero receber o amanhecer
Calmamente,
Como assim deve ser!