Viagem

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Tão depressa avanço como recuo
Por vezes perco-me no trilho
Até recuperar o sinal de orientação
Aquele que me dita o sentido
E dá voz ao coração.
Tenho o corpo vestido de vida
E enfeitado de sonhos
Faço dos dias uma viagem
Para descobrir quem sou
E para onde vou.
Cada estação é local de paragem
Sacudo o cansaço e respiro o silêncio
Que o olhar absorve de cada paisagem.
Não existe longe
Quando a razão dita a distancia
No brilho de cada amanhecer
E na crescente vontade de viver.
O longe se torna perto
O caminho liberto
No esculpir de cada palavra
Tatuo a minha marca
Não só do meu caminhar
Como da força do amor
Que me faz continuar…

Somente sentir

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Fiquei presa ao teu olhar
À doçura do teu sorriso
Naufraguei nos teus braços
Até em ti me afundar.
Enquanto aí permanecer
Todas as palavras serão mudas
Nada a dizer
Nada a questionar
Somente sentir.

Ser que me dá Ser

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Ligados à vida para a vida
Tu que cresces no meu ventre
Filho da minha semente
Pele da minha pele
Amor que germina amor
Renasço com o teu respirar
Ser que me dá ser
Dissipas o grito da minha dor
Assim que te sinto nascer.

Aconchego-te no meu peito
Adormeço-te no meu leito
Guardo-te em mim
Na corrente que nos une
Serei sempre o teu cais
A tua âncora
Ouvirei o som do teu silêncio
Em respeito pelo respeito
De semelhantes não sermos iguais.

És o meu presente
Hoje e serás sempre
Dentro e fora de mim
Haverá sempre lugar
Para te deixar voar
Estendo as minhas mãos
Para te receber no meu ninho
Manto de amor e carinho
Quando entenderes poisar.

Importa viver

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Mais um dia a começar
Atado ao anterior por acabar
Já conheço de cor as horas
Mesmo sem as contar.
O que resta de mim
Nestes dias vulgares
Aos gestos repetidos
Que caem num vazio doentio
Capaz de suspender o tempo
Onde só o silencio desperta
Esta triste realidade
Deixando cair a vontade
De ter algo para oferecer.
Não resta mais que enfeitar a sombra
De um corpo já cansado
Que apesar de não ser velho
Tomba de tão inocente ser
E de tantas vezes provar
O sabor amargo de sofrer.
Visível a fadiga que me lavra o rosto
Nas tatuadas cicatrizes de desgosto
Não aprecio simpatia tecida em hipocrisia
Não sei ser fachada colorida
Na terra que se tornou agreste e esbatida
Onde todos se olham sem se ver
E passam a acreditar no que fingem ser.
Tudo isto habita em mim
Porque, até então, não sabia ser assim
Hoje, vejo apenas o que quero ver
Silencio o que de mais parecer
Importa viver.

Como eu queria…

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Como eu queria
Ter o teu mundo
Perto do meu
Moldar o meu corpo
Para encaixar no teu
Ter um pouco das horas
Que cobrem o teu dia
Ser um pedaço de felicidade
Um doce que alimenta
A nossa cumplicidade
Como eu queria….

Acordar com o teu acordar
Corpos despidos e unidos
Enlear-me no teu coração
Como um ninho de amor
Construído lado a lado
Num bater de asas desenfreado
Ser o teu ponto de luz
No caminho que te conduz
Por aqui ou mais além
Como eu queria
Ir também…

A primavera a chegar

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Suave fragância
Que emana no ar
O cheiro da terra
As flores a desabrochar
A primavera a chegar!

Vou vestir as palavras
Com pétalas de flores
Aromatizar um poema
Pinta-lo de várias cores
Pedir à brisa que o leve
Faça despertar novos amores.

A primavera está a chegar
A alma despede-se da embriaguez
Da pacatez dos dias de inverno
O sorriso alastra no rosto
O sol acorda bem-disposto
O coração abre-se para amar.

Quero germinar dentro de ti
Flor que cresce e enaltece
Metamorfose de desejos
Entre afagos e beijos
De primavera a mulher
Sou de quem bem me quer.

O tempo

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Percorro com o tempo
Um longo caminho
Convidou-me a seguir com ele
Para não se sentir sozinho.
Mas quando reparei
Já ele estava distante
Tropecei no passado
E enquanto lá fiquei
Ele seguiu em frente
Ausente de mim
Presente no presente.

… O tempo não corre mas não para
Não destrói nem repara
Não mente nem trai
Não vem nem vai
Não apaga memórias
Não constrói histórias…

O tempo é uma sequência
O decorrer de uma viagem
Limitado pela cadência
Pelo peso e pelo valor
Da nossa bagagem.
A leveza da mente
O saco dos sonhos
O poder do amor
A busca da felicidade
O ir em frente
Viver de verdade.

… O tempo não muda
Mudamos com o tempo
Sempre a tempo
De crescer
De voar
De aprender a amar…

Quando anoitece

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Quando anoitece
Mergulho na escuridão
Silhueta a preto e branco
Com a nudez do coração
Quebro as amarras
Que prendem o corpo
O libertam da razão
Para alimentar a paixão.
Procuro a luz da noite
Para soltar os sentidos
Ir ao teu encontro
Pássaros enlouquecidos
Amantes destemidos
Num bater de asas
Alto e profundo
Voamos em sintonia
Até chegar o nascer do dia.

Confusão…

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De repente o olhar fica vazio
Mudo
Tudo é pálido e sem cor
O sorriso fica fechado
Sisudo
Opaco e sem valor
Em redor tudo desaparece
Não há gente
Não há como seguir em frente
Até o tempo parece que parou
Confuso
O que será que mudou?

Há momentos que tudo cansa
Até o próprio descanso
Tantas vezes fujo da agitação
Ansiando o sossego
O repouso da mente
O libertar da razão
Mas tudo muda rapidamente
Volta o desassossego
A azafama da multidão
Não há como seguir em frente
Tanta é a confusão.

Também não sei se quero ir
Nem tão pouco se quero ficar
O corpo está do avesso
Sinto a alma a doer
O coração a esmorecer
Já nem sei se me conheço
Se é na quietude que me aborreço
Ou no receio de a perder.

Memórias…

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Na memória das memórias
Habitam pedaços de histórias
Traços que tracei
Laços que atei
Vitórias que conquistei.

… Fragmentos de momentos
Tristeza pelos dias cinzentos
Alegria pelos talentos
Pelas passadas de sucesso
Entre outras de retrocesso.

Na memória das memórias
Está tatuada a saudade
De conversas inacabadas
Estilhaço de gargalhadas
Lembranças jamais apagadas.

… Alojamento de pensamentos
Alguns pelo tempo presente
Outros de um passado já ausente
Permanecem ou esmorecem
Pelo valor e espaço que merecem.

… A memória
É um encaixe de ideias
Uma esponja de sentimentos
Uma triagem que marca uma viragem
Para seguir em frente na nossa viagem.