Entre incertezas…

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Sou feita de tantas incertezas
Com certeza nem sei quem sou
Guardo pedaços de existência
Para não perder a inocência
Da idade que o corpo
Carrega para onde vou.

Não consigo saciar a vontade
De pousar em todas as palavras
Tudo o que é estranho entranha
Preencho os dias de silêncios
Memorizo todos os olhares
Retrato-me em múltiplos lugares.

Percorro passos certos
Que me levam a destinos incertos
Encontro sentidos há muito perdidos
Remendo partes de mim
Na incerteza que me cobre o ser
Há uma luz que nunca se irá perder.

 

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Rasgo o vento

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Rasgo o vento
Com as palavras
Que levo no pensamento
Com o silêncio
Que trago na voz
Vou tecendo a vontade
De ajustar o ser ao crer
Dando tempo ao tempo
Abrindo a cortina
E no aconchego do corpo
Entrego a alma
À poesia.

Dizem… que é outono

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Diz-se…
Que é a quietude da alma
Que cai sob a essência das folhas
E num feitiço de cores
Pintam a natureza
De tons quentes
Que aquecem o olhar
No estalar do frio
Que nos vem visitar.

Diz-se …
Que é o adormecer dos dias
Entre o céu acinzentado
E o sol amedrontado
Com o soprar do vento
E o cair da chuva
Que lhe roubam o raiar
Esconde-se deprimido
E só às vezes vem espreitar.

Diz-se …
Que é o colher de sensações
Um curar de feridas e cicatrizes
Um remexer de emoções
Entre o refúgio das lembranças
E a audácia das mudanças
Num bater de asas
Rumo a novas fragâncias
Abrigo de todas as estações.

Dizem…
Que é o outono.

Traços…

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Da terra guardo os segredos
Promessas de um campo aberto
Sémen de trigo que germina
Entre o ventre das colinas
E a suave brisa do silêncio.
O olhar pousa e repousa
O corpo fatigado pela safra
Do amadurecer dos sonhos
E da colheita dos desejos
Semeados no regaço do coração
Tecidos no abrigo da imaginação.
Por entre os traços verdes do arvoredo
Cresce a raiz que me prende à vida.

Poeta

romanticism-2041418_960_720… Sente as palavras como pétalas aveludadas
Embebe-as em ousadia,
Entrega-se à arte
De as acomodar em poesia.

 

É quando fecho os olhos
Que sinto as palavras
Escritas no teu olhar.
Poeta,
Que despertas o meu silêncio
Derramas em mim
A fragância da tua rima
E ao meu corpo vens buscar
A substância da tua poesia.
Encanta-me
Esse teu encantado mundo
Que por vezes desconheço
Mas é tão doce
Tão vivo,
Apenas o quero habitar.

Num banco de jardim

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Sentado no banco de jardim
De olhar triste e sombrio
Semblante magoado
Em quietude ignorado
Pela vastidão dos rostos
Que seguem na multidão.

Embebido em silêncio
Por um corpo repousado
Cansado do cansaço
Entre o vazio acumulado
De andar de banco em banco
Sozinho e arrastado.

Aprendeu a moldar os gestos
Para não ferir quem o possa ver
Gasta as horas que cobrem os dias
No aconchego da memória
Refúgio onde correm as lágrimas
E o levam à nascente da sua história.

Prende-se à corrente dos outros
Acrescenta-se com tudo o que vê
Alimenta-se com o viver da gente
Dá um jeito às dores que sente
Deixa-se ir com o pensamento
Até chegar o seu momento.

 

Vou com o olhar…

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Não finto o olhar
Vou para onde ele me levar
Tamanho é o horizonte
Que já não me cabe no peito
Transbordam os sonhos
É nas nuvens que me deleito.

A vida move-se
Entre o escorrer do tempo
Dos dias a amadurecer
E das noites acordadas
Acorrentadas à insónia
Ao desejo de serem amadas.

Tomara eu ter asas
Para alimentar as madrugadas
Cobrir de beijos as orvalhadas
Travar a distância dos corpos
Ser sol e por vezes lua
Num sopro de vento ser tua.

Berço de aconchego

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Sinto a dor entrar-me na pele
Ao caminhar descalça entre o pó
E a saudade do verde do teu olhar.
Olho as árvores desfolhadas
Tão visível a magreza,
A tristeza,
De terem sido abandonadas.

A terra está carente de semente
De grão
De um sopro de gente
Que lhe estenda a mão
Pedra a pedra
Lhe devolva a calçada
Os sonhos de cada estação.

Meu berço de aconchego
Deixa-me sacudir-te as feridas
Costurar-te as asas
Para que possas de novo voar
Tão longe quanto os pássaros
No rasgar dos dias
Que alegremente vivias.

Entrego-me…

jade-304361… Rasgo o céu aberto
Desenho nele um lugar,
Onde as nossas mãos
Se poderão tocar…

 

Entrego-me como sou
Aos sentidos que brotam
E fintam a aparência
Onde floresce a raiz da essência
A fertilidade da alma
Que me conduz
Aos múltiplos lugares
Que habitam dentro de mim.

Sinto-me presa
Sem me prender a nada
São tantos os caminhos
Que não me recordo
Se já escolhi algum
Ou se, entretanto, me perdi
Sem habitar nenhum.

Ainda tenho em mim as asas
Para o voo que traçamos juntos
O meu olhar ainda caminha
Para se cruzar com o teu.
Partiste sem mesmo chegar
Talvez o amor seja assim,
Tenha que ser livre e voar
Para depois se voltar a encontrar.

Pelas ruas da cidade…

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Pelas ruas desta cidade
Em passo incerto
Ajusto o meu olhar
À nudez
Dos olhares que se cruzam
Sem se ver
Tamanha é a fluidez
Dos passos
Que os levam a correr.

Pelas ruas desta cidade
Ecoa o silêncio
De palavras inacabadas
Conversas apressadas
Rostos mudos
Com sorrisos sisudos
Em estado de viuvez
Estando o dia a nascer
Já se sente a falecer.

As ruas desta cidade
São tecidas de multidão
Empurradas pela solidão
Em estilhaços de ruído
Sem conteúdo
Levadas ao acaso
Pela escassez do tempo
Que se agarra à liberdade
Das ruas desta cidade.