Identidade

Conheço-me

De perto

Tal como sou

Entrego-me

De coração aberto

Sei o que dou,

Habito

Dentro e fora de mim

Traços novos caminhos

Mas sei de onde vim,

Colho na madrugada

Essência que se dissolve assim

Entre o silêncio do corpo

E a inocência das palavras

Cúmplices até ao fim.

…Com um sorriso…

Porque sinto a tua falta

A dor não deixa de doer

O meu olhar entristece por não te ver

E o coração empobrece por não te ter.


Porque é difícil aceitar a perda

A alma sufoca revoltada

O corpo entrega-se a uma fraqueza descontrolada

Vive-se em silêncio numa vida pesada.


Habitarás sempre dentro de mim

A tua memória irá permanecer

O teu sorriso faz o meu não desaparecer

Hoje e sempre és o irmão que não irei esquecer.


…Com um sorriso…

Passo a Passo

A cada passo

Sinto a liberdade das árvores

Invadirem o espaço que é do céu,

O rasgar do vento

Que penetra em cada momento

No agitar da folhagem

Que bate forte no silêncio

Levando e trazendo a aragem

Como se fosse roubar o pensamento.



A cada passo

Piso o chão preso pelas raízes

Que sustentam a altivez do teu corpo

E o meu olhar fica a flutuar

Entre a quietude do azul do céu

E as folhas verdes que o vão enamorar,

Pela distância tudo parece sereno

As árvores continuam crescendo

E o caminho vai-se fazendo.


Passo a Passo…

Será Verdade?

Será verdade

Que temos a memória

Talhada de pedaços

A pele carregada

Como uma silhueta de estilhaços

E o corpo vagueia

Num corredor de mentiras

Entre lapsos de tempo

Corrosão de cansaços

Lágrimas escondidas

Palavras perdidas

Horas fugidas

E promessas quebradas

Será verdade?

Um novo olhar…

De mãos vazias

Mas estendidas ao mundo

Vagueia pelas ruas

Um olhar,

Um silêncio vagabundo

Que se mostra clandestino

Perdido na penumbra

Como se andasse sem destino.



 

Temido pelo tempo

Entre um passado vivido

E um futuro talvez esquecido

Este olhar,

Embora um pouco desajeitado

Não é alheio à miragem

De ver o céu estrelado

E de com ele seguir viagem.



 

Um olhar

Que hoje é meu

Amanhã poderá ser o teu

De mãos vazias

Mas abertas a cada acordar

Onde nasce sempre um novo olhar…

Outono

O dia amadurece

Como sendo um fruto,

Um rosto que envelhece

Semente deitada à terra

Colheita que a terra nos oferece.

As horas rodeiam a vida

E a natureza não fica desapercebida

Abre mão à ceifa

Que leva consigo o verão

E num sopro traz o vento

Debulhando o grão da nova estação.

Entre as folhas caídas

E as árvores que ficarão despidas

O olhar permanece

Atento ao desnudar

Que no outono acontece…

…Entre poemas…

Constantemente inconstante

Da poesia amante

Desfio as palavras

E com elas teço uma história

Entre olhares,

Onde perdura a memória

De diálogos que imaginei

Poemas que inventei

Todos pulsam no coração

Imaginados ou retratados

Ilustram a minha imaginação.

Tudo se inventa,

Constantemente se cria

Sou variável inconstante

Entre os versos e as rimas

Que me fazem companhia…

Estender o tempo …

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Vou sacudir as horas
Para dar repouso aos dias
Estender o tempo,
Riscar o cansaço
Para dar ao corpo espaço
De alargar o sorriso,
Fintar a correria do dia
De olhar vadio
Ao acaso,
Pausando o pensamento
Desejo sadio
De quebrar a rotina
Em gestos sentidos e merecidos
Pausando….