Esvaziar a saudade

Nestes dias curtos

Que vestem o outono

Todos os espaços parecem vazios

Ausentes

O olhar espelha silêncio

Melancolia,

Eu só quero encontrar um lugar

Quem sabe um rosto

Ou um poema

Onde esvaziar a saudade

E sentir de novo a luz

Das nossas mãos se voltarem a tocar.

… O meu mar …

O mar é meu vizinho

De tantas vezes que o vi

Apenas hoje o senti naufragar

Sozinho,

Perdido à deriva no meu olhar

Procurava refúgio

Alguém com quem desabafar.

Já a brisa o tentava animar

Dar rumo às marés

Iluminando as madrugadas

Como se fosse um farol

Onde os corpos salgados

Se vão abrigar

Das tempestades do mar

De tanto ele amar…

Rasgar o tempo

Quero chegar até ti

Deixar de ter as mãos vazias

Colher as horas e os dias

Rasgar este tempo apressado

Levar-te um abraço apertado

E sentir nas noites vadias

O abrigo dos teus beijos

Berço de aconchego

De todos os desejos…

E de repente o outono

E de repente o outono

Retratado no tempo

Nas manhãs despidas pelo vento

Entre as folhas amarelecidas

E na chuva que vem espreitar

Os dias que se deixam encurtar.


E de repente o outono

Um novo tempo a acontecer

Gestos que amadurecem o olhar

Vontade acesa de recriar

A estação que a terra vai vivenciar

E que na pele vem pousar.

Abri a porta…

Ao fechar a porta

Recolhi o olhar

Aprisionei as palavras

Senti a solidão entrar,

Consciente de ferir o coração

E de pôr os pensamentos a hibernar

Sacudo o tempo

Salto para a vida,

Dou liberdade aos dias para voar

Guardo o que é bom de guardar

E ao abrir a porta

Sinto o vento a soprar

Até a alma arejar…

Albergue de emoções

Terra despida

Em raízes envolvida

Sementes que brotam

Desejo fértil de vida

Refúgio,

Terra prometida

Dias que amadurecem

Sombras que florescem

Traços que marcam o rosto

Luz que permanece além do sol-posto,

Terra vivida

Albergue de emoções

Instantes constantes

Renovar de estações…

Dar sentido aos Sentidos

Gosto de te ver

De olhar no teu olhar sarado

Despreocupado,

Sentir as tuas mãos livres

O teu abraço apertado

Aconchegado,

Ouvir em silêncio as tuas palavras

O teu discurso letrado

Enfeitiçado,

Mergulhar no odor da tua pele

No veludo acastanhado

Perfumado,

Trocar os meus beijos pelos teus beijos

Esse sabor frutado

Apaixonado,

Gosto de dar sentido aos sentidos…

Silenciosamente

E de repente o silêncio

O céu despido de asas

O sossego da escuridão

As estrelas que parecem brasas

Ardentes na imensidão.



E neste silêncio

Brindo ao sabor do anoitecer

Com o rosto vestido de luar

Adormeço entre os sonhos

E a luz que me faz despertar.


Silenciosamente

O dia acaba de chegar…

…Caminho…

Nem sempre me acompanho

Por vezes o caminho excede o tamanho

Sinto que o tempo me leva e não me traz

Alimento os sonhos sem saber se sou capaz.


Sentido é o olhar que abre a minha alvorada

Silêncio é companheiro na minha jornada

Não temo não ter a certeza de nada

Mas quero ser eu e não viver disfarçada.


E se hoje me sinto desencontrada

Não tarda virá a madrugada

Amanhã estarei de cara lavada…