O inverno a chegar

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Desassossegado
Assim está o vento
Ora leve ora pesado,
Furioso e descontrolado
Quem o terá chateado?
Visível a inquietação
Resta a solidão
Nesta terra deserta,
Sossego sombrio
Que afugenta os pássaros
Despe as árvores
E arrasta o frio.
O dia fecha-se em si próprio
Parece triste e desiludido
Tudo à volta é pacato
Sem ruído,
Será que está perdido?
A chuva lavou as cores
Regou demais as flores
Até as palavras
Escorrem pelo chão
Folha entre folha
Encharcam o caminho
Seguem em contramão.
As ruas perderam o diálogo
Vazias e sem brilho
Vivem agora dos lampiões
Que iluminam os serões
Gastos pelo tempo
À procura de movimento.
O que é feito da gente?
Recolheram os passos
Agasalham as conversas
Costuram as emoções
Enquanto aquecem o olhar
No sussurro do vento
Que o inverno foi buscar.

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Entre os dias…

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Os dias nascem
Uns a seguir aos outros
Ritmados a cada passo
Em contornos desiguais
Num abraço contra o tempo
Na luta de querer mais
Em constante mutação
Onde despimos os afetos
Desprendemos o coração
Rasgamos caminhos
Ainda que sozinhos
Sem tempo para acompanhar
A realidade do olhar.

Os dias morrem
Uns a seguir aos outros
Com o cair das horas
E a perfeição do tempo
Que passa sem vacilar
Em gestos repetidos
Mas nunca iguais
Onde vestimos a vontade
De travar as esperas
Guardando pedaços
De promessas imortais
Tecidas pelo olhar
Construção da realidade.

Desfolha-me…

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Descobre-me,
Folheia-me
Traduz
Palavra a palavra
A sintaxe
Do meu corpo
Conjuga-me
Em todos os sentidos
Contorna
A minha forma
Cor e textura
Quero ser complemento
Singular
Da tua leitura.
Enfim,
Advérbio de tempo
Presente
Nos gestos
Entre os versos
Escritos em liberdade
Lê-me,
Sem princípio nem fim
Desfolha-me,
Como se entrasses dentro de mim.

Entre o rio e o mar

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“Sou rio que só conhece o teu mar”

Sou rio
Para no teu mar desaguar
Nos teus braços ondear
Provar o sabor do teu sal
Entre o vento e tempestades
Ir mais longe e mais além
Entregar-me às marés
Onde vais e vens
Banhar-me na tua espuma
Deixar-me ir
Na água que resfria
Sob o manto da tua bruma
Cair na tua profundidade
No abismo do desejo
Naufragar no teu oceano.

Porquê?

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A dor que me veste o peito
E o desgosto tatuado no rosto
São retrato de um coração desfeito
Cravado de agonia
Transbordando de angústia
Tanto de noite como de dia.

Ausentaram-se as palavras
Para costurar a ferida
Que sangra pela partida
De uma vida interrompida
Onde o manto de tristeza
Cobre e sufoca a leveza.

Os gestos perdem o sentido
O corpo vagueia mudo e perdido
A saudade rasga-me a pele
Enquanto o olhar repousa
No silêncio da solidão
E pergunta, porquê?

Entrelaçados

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Quero que habites
Todos os pontos onde moro
Quero ser a pele
Do teu caminho
O pouso entre os teus voos
Cobrir as nuvens
Enquanto o céu se abre
Voar entrelaçada nas tuas asas
Tecer a liberdade
E voltar ao ninho
Para alimentar a vontade
De viver o amor
Vesti-lo com a idade
Aprender a envelhecer
Lado a lado
Sentir o teu olhar
Na minha pele enrugada
Feliz de tanto ser amada.

Bom dia!

 

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“Cada dia é uma fragrância
O meu coração um frasco de perfume
Alberga a doçura de saber amar
Liberta frescura ao acordar”

O dia acorda silencioso
Um pouco preguiçoso
Tal como o meu corpo
Ainda alimenta a madrugada
Avesso à alvorada
Entre gestos desajeitados
Tombados,
Sob a inércia do aconchego.
Enquanto o tempo
Aparece meio ensonado
Até um pouco camuflado
Mas não para de dar corda às horas
Flecha que me crava o pensamento
Não me deixa saborear o momento
Quero receber o amanhecer
Calmamente,
Como assim deve ser!

Nudez …

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Desejo a nudez
Dos nossos corpos
Para cobrir
As palavras
Ainda por amadurecer.
Vamos pôr a nu a essência
Da conversa
Despir os segredos
Deixar a pele repousar
E hoje, apenas saciar o anoitecer
Com tanto que temos a dizer…

Estendo-te as minhas mãos

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Estendo-te as minhas mãos
O espelhar do meu olhar
O tato do meu retrato
Onde guardo as palavras
Que não sei pronunciar.
Albergo segredos
Histórias e memórias
Traços de identidade
Mãos que alimentam a paixão
Traduzem os gestos
Vividos pelo coração.

Estendo-te as minhas mãos
Acariciadas pela idade
Vinco de personalidade
Cor da minha pele.
Porto de abrigo
Aconchego e sorriso
Mãos que costuram feridas
Construem laços
Fortificam abraços
Vestem-se de cumplicidade
Partilham felicidade.

Estendo-te as minhas mãos
Que dizem o que sentem
Não mentem,
Mãos que choram a dor
Mãos que vivem de amor.

Apenas um sonho

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… Pela vontade de não querer viver pela metade
Encaixo os sonhos na minha realidade
Balanço entre a ilusão e a razão…

Ainda que
Seja apenas um sonho
Agarro a tua presença
Entre suspiros,
Sinto-te dentro de mim
Tomo conta das horas
Para que a noite não tenha fim.
Quando o amanhecer
Me vier acordar
Vou guardar-te no meu coração
Até ao anoitecer
Para quando adormecer
Continuar a sonhar.
Não vou deixar o sono
Roubar-te
Simplesmente assim…