No voo da solidão

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É como se fosse um voo
Que atravessa o caminho
Arrastando uma mágoa
Que cria pouso no coração
De tão sozinho,
Sem ninguém por perto
Acolhe de peito aberto
Este passageiro,
Estende-lhe a sua mão
Que traz na bagagem a ilusão
De ser prestável companheiro
Mas viaja sem rosto,
Deixando um rasto de escuridão
Onde já nada parece existir
Se não o sentir da solidão.

 

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Poetas

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Aprendi a falar com as palavras
A enamorar-lhes o sabor
A escutar a leveza
O traço de delicadeza
Do manto que descobre
Os segredos dos poetas
Quando despem a alma
E aconchegam os sentidos
No corpo de um poema
Onde as palavras
São sussurros de amor…

A vida acontece …

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A cidade amanhece
O silêncio que a cobria desaparece
Abrem-se as portas
Para mais um dia de memórias
Relato vincado pelos rostos
Que cedo carregam no tempo
O compromisso de vestir a missão
O ofício que preenche o coração.

A cidade amanhece
O azul do céu timidamente aparece
Descobre-se a traça
A fachada que guarda as histórias
O som dos passos madrugadores
Que corajosamente abrem a rotina
A vontade de não perder a construção
Que une o sonho e a razão.

A vida acontece
Em cada olhar que amanhece…

Amanhã será tarde…

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Amanhã será tarde
Não quero adiar o que trago no peito
Não quero guardar a luz dos dias
Nem esconder o olhar que traduz alegrias
Quero preencher este coração pulsante
Nem que seja por um instante
Dar corda à vida que sustenta este meu jeito
Sentir que o tombar das horas é um destino perfeito.

Amanhã será tarde
Serei levada com o vento
Deixarei as palavras sem movimento
Serei abrigo para a escuridão
Num tempo que escorrega com exatidão
E cai no meu corpo que vagueia sem pensamento
Porque o hoje se perdeu deste momento
E resgatou todos os sentidos para outra dimensão.

Não quero deixar cair o olhar
Nem perder a lucidez de amar
Nesta vida que acolhi
De alguém muito especial a recebi.

Porque amanhã será tarde…

 

 

Em paz

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Se os nossos abraços
Se abraçassem
Se os nossos olhos
Se olhassem
Se as nossas mãos
Se tocassem
Se as nossas palavras
Se ouvissem
Se as armas
Se calassem
Se os povos
Se respeitassem
Se a inocência
Não se perdesse em violência
Se a verdade
Não se vestisse de desigualdade
Se a vida
Se vivesse em liberdade
Talvez o medo
Se dissipasse
E o mundo
Se amasse…

… Em paz

No silêncio da noite

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Habito no silêncio da noite, quando as pálpebras descobrem o adormecer na penumbra do anoitecer.
O sono descansa entre o repouso do corpo e a imaginação dos sonhos que atravessam a luz através da escuridão que bate na vidraça da janela.
Sinto a sombra da lua que dorme mesmo ao meu lado, no aconchego do céu estrelado.
Vagueamos no mesmo vagar e tenho fases em que o meu pensamento se perde algures no seu luar.
Guardo os aromas que colho durante o dia e aguardo o anoitecer para partilhar este respirar.
Contemplo a cumplicidade desta vivência, deixo as palavras soltas pelo céu e sinto o reluzir das estrelas que se unem para apanhar os segredos que escapam do nosso conversar.
Transporto a essência da noite para o silêncio do meu acordar…

E de repente…

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E de repente,
Oiço passos que estremecem
Nas ruas frias e molhadas
Folhas e folhas amarelecem
Pela chuva e pelo vento são levadas
Arrastadas pela melancolia
Que o inverno traz ao dia.

E de repente,
Sinto os dias a escurecer
As árvores despidas a tremer
O correr dos passos que arrefecem
Entre as conversas que aquecem
O crepitar da multidão
Que embrulha a pele na nova estação.

De repente
Leve ou levemente,
Teremos o inverno presente…

Entre fragrâncias…

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Toca-me,
Como se tocasses a fragrância da madrugada
Sob a nudez da minha pele entornada
Por entre as linhas do meu corpo espalhada
Como se fosse poesia declamada
Por entre as tuas mãos dedilhada
Sinto-me,
O sentido da palavra
Inteiramente perfumada!

Será?

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Lembras-te…
Do sorriso que embriagava o teu riso, tantas vezes aparecia de improviso, a gargalhada que enfeitava o meu rosto… como os nossos braços abraçavam o tempo que passava, sem pressa, cúmplice do nosso tempo, onde repousávamos os corpos e saboreávamos os beijos entre os desejos que ponhamos a amadurecer, sempre que íamos ver o sol-posto ao entardecer.
Lembras-te?
Como era fácil rodopiar com o vento e voar na sua liberdade.
Já não encontro mais esse tempo, terá fugido de mim?
Todos os meus espaços estão agora ocupados, até o riso parece ter perdido o juízo, esconde-se deprimido.
Olho para o tempo e já não o reconheço… é como se caminhasse do avesso.
Será que o vento mudou de direção ou simplesmente se tornou travesso à cumplicidade do nosso coração…
Será?

O dia abre-se…

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O dia abre-se
Silencioso,
Enquanto o meu corpo pestaneja
Ansioso,
Pela chegada de luz
Que traduz o acordar.
Rendo-me à leveza
Ao sossego da natureza
Que desperta à hora certa
E entra na janela do meu peito
Pelo quarto ainda meio desfeito
Convencendo este meu jeito
A desabrochar o olhar
Para acompanhar o tempo que escorre
Límpido e sereno
Em cada dia que nasce
E se veste para se renovar.